Cantor de rádio ou jogador de futebol?

Novembro 18, 2009 por Marcos Oliveira

Eu já falei que este não é o Alceu Valença...

Pois é Moraes, pra você ver. Quem diria que uma simples brincadeira, uma piada em um programa dominical tão criticado pelos cultos, chatos e eruditos guardiões da genuína cultura nacional iria aflorar a ponta do iceberg que é a sua música, sua poesia e a sua obra.

Pois é Moreira, eu ia lhe chamar. Para ver que pelas ruas, pelas veias, daqui ao pelourinho os jovens cantam que, enquanto a barca teimava em correr (mas não seria navegar?), seus versos abandonaram a suave melodia para – enfim – nos conquistar. Mas eu acho é pouco.

Pois é Moraes, pra você ver Moreira. Sobrenomes a estabelecer uma rica melodia, um choro em dó maior, um hino nordestino, ao som de um sanfoneiro, um sanfoneiro bom. Pelas capitais e por todo o Brasil ecoa a beleza de sua música que acompanha a maravilhosa malícia de um país que desce a ladeira.

Pois é Moraes, então chame gente. A gente se completa, se alegra e não se esquece das meninas do Brasil. Algumas dançam, outras viram os olhos em um mistério que nem todo o planeta pode desvendar. Mas besta é tu que prefere questionar porquês ao invés de admira-las até o sol raiar.

Pois é Moraes, acabou chorare. Da guitarra baiana, ao frevo de Pernambuco, do trio de Dodô e Osmar, você é o carnaval em cada esquina do coração do Brasil. És tu quem dá brasa às fogueiras de alegria e anima o nosso bloco – o ‘Bloco do Prazer’… “Escute esta canção que é pra tocar no rádio, no rádio do teu coração…”

Making off do programa Som Brasil Moraes Moreira

Acabou Chorare

Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira

Jussara Silveira – Besta é Tu

Aline Muniz – Bloco do Prazer

Márcia Castro – Vassourinha Elétrica

Três meninas do brasil – Meninas do Brasil

Muito além de um modelo de violão

Novembro 15, 2009 por Marcos Oliveira

 

Folk music se escreve em inglês?No ano passado (2008), talvez pela ascensão de artistas como a monossilábica Mallu Magalhães, como os aspirantes a rockstars do Vanguart e também pelo show de Bob Dylan em terras tupiniquins, a galera cult adotou para si a música folk reproduzindo – como já é de costume – discursos e estereótipos de modernidade e vanguarda.  

A partir de então, alguns nomes como o de Bob Dylan e Jhonny Cash não abandonaram as bocas, as frases, os posts, os tweets e, tão pouco, os arquivos de música em vários mp3players por aí afora. Mas digo que não é isso que me incomoda ou me aflige, e sim a perpétua postura de desconhecimento da cultura nacional.

Como pode? É possível falar de música folk e desconsiderar os nomes da música caipira brasileira? É inteligente falar de folk music sem lembrar de um gênero tipicamente brasileiro que é o rock rural? Sem contar os inúmeros nomes da cena regional nordestina que sabia misturar os traços específicos da cultura e características globais da modernidade.

Pode-se dizer da música folk, que ela é um gênero influenciado pela cultura popular, especialmente a rural. Com a sua apropriação por parte da cultura de massa, e especialmente pela cultura pop, o discurso político, ou mesmo de resgate cultural, passou a ser outro aspecto importante de tal estilo musical. Ao contrário do que alguns pensam, não é apenas o uso do violão folk que caracteriza a canção.

Para vocês verem meus caros Renato Teixeira, Almir Sater, Sá, Rodrix & Guarabira, Terço, Belchior, entre tantos outros nomes… Santo de casa não faz folk, pois em casa de ferreiro o espeto vocês já imaginam do que é feito. Repito que não critico os artistas, nem o gênero, mas sim, o continuo desinteresse pelo que é nacional, ou será que música boa só é cantada em inglês?

Casa no Campo / Caçador de mim / Espanhola – Sá, Rodrix e Guarabira

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione!

Novembro 5, 2009 por Marcos Oliveira
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"Onde foi parar a emoção das canções?"

Certa vez, o cabeludo aqui parou para pensar a respeito de como o profissionalismo na cena pop mundial tem condenado a música a um marasmo irritante e a um entusiasmo com limite de velocidade. À medida que os músicos, artistas e bandas se tornam mais dedicados e preocupados com seu trabalho e com a produção, mais as canções e trabalhos se tornam efêmeros e perdem em emoção e a gloriosa vocação para se transformar em um clássico.

Compõe-se hoje como se troca uma lâmpada, como se prepara um miojo e como se escreve um recado. Especialmente no Brasil, onde muitos artistas são pressionados e anualmente aparecer com novos discos, novas turnês, novos projetos para DVD e novos clipes, vive-se um processo de saturação e desgaste musical cujos representantes principais são os artistas apadrinhados pela MTV.

Onde foram parar aquelas canções que só de se escutar a primeira nota já sentimos um frio inexplicável na espinha? Onde foram parar as canções que não são apenas letra encobrindo melodia? Onde foram parar o sentimento, a emoção e o conceito? O novo já nasce velho? Essas perguntas me acompanham, afinal de contas deve haver alguma coisa que ainda nos emocione. Mas o que será?

Seriam os clássicos do passado. Sempre que vasculho e faço o download de obras e álbuns de artistas mais antigos percebo que a velocidade do mercado vem minando, se é que já não acabou, a sinceridade, a espontaneidade e a honestidade antes presente nas canções. Talvez o fato de termos nos acostumados a não adquirir música e apenas a consumi-la de maneira oportunista tenha tornado os músicos e bandas menos comprometidos e mais preguiçosos – toma lá, dá cá.   

Paralelas – Belchior

Banco – Engenheiros do Hawaii

Mutantes X Novos Baianos

Outubro 26, 2009 por Marcos Oliveira

 

Disputa pra maluco nenhum botar defeito

 

Sempre que eu escuto de alguém – quem quer que seja – palavras exaltadas e frases apaixonadas defendendo toda a inovação que a banda brasileira ‘Mutantes’ representa para a música brasileira e mundial eu me lembro da fala do meu amigo Renan. Segundo ele a banda apresentou apenas uma diferenciação sonora, mas não tão inovadora já que importou a psicodelia que vigorava fora do brasil e travestiu de tropicalismo.

Sempre que escuto esta defesa de pessoas que não conhecem o trabalho do grupo ‘Novos Baianos’, ou tem a audácia de dizer que não vê grandes inovações na sonoridade da banda o fã ortodoxo que está escondido em mim vem à tona. Ao misturar música brasileira – não apenas na temática, mas também em ritmos e técnicas –  e música pop, os ‘Novos Baianos’ estabeleceram um estilo dificilmente copiado e categorizado – Samba? Rock? Sambarock? Choro? Frevo? Forró? Bossa nova?

Quando o aspecto observado são as letras, mais do que os Mutantes, os Novos Baianos constituem uma forma bastante própria e inovadora de composição – chamada por alguns de poesia canábica. Muitas das letras ficavam por conta de Galvão, mas e os instrumentistas? Aí é que fica complicado questionar uma banda composta por Pepeu Gomes e Moraes Moreira – aclamados em seus respectivos instrumentos. Nos vocais? Baby e Paulinho são a medida certa entre entusiasmo, técnica, dom e inspiração.

Não que eu queira criar uma rivalidade entre os admiradores de cada grupo, pois eu também curto ‘Mutantes’, mas, antes de qualquer fã ortodoxo falar qualquer devaneio apaixonado, é bom saber que em algum lugar pode haver um outro fã ortodoxo adormecido prestes a acordar e metralhar argumentos pra lá de convincentes.

 

Dona Nita e Dona Helena – Novos Baianos

 

 

Panis et circenses – Os Mutantes

 

Malas prontas

Setembro 17, 2009 por Marcos Oliveira

Neste fim de semana estarei em São Paulo… Sem acesso a internet e nem que eu tivesse… mas não fiquem triste, pois na segunda-feira estarei de volta com boas novas sobre essa viagem à terra da garoa… É gente… De fato… os novos baianos te podem curtir numa boa…

Bjos… fui

Videocast Sandália e Meia

Setembro 16, 2009 por Marcos Oliveira

 

"Como Deus quis e o Diabo deixou!"

"Como Deus quis e o Diabo deixou!"

 

Dando prosseguimento à nova fase do blog Sandália e Meia – Jornalismo musical e opinião, venho divulgar mais uma edição do videocast Sandália e Meia. Gravado – agora – em Juiz de Fora-MG, este aclamado projeto de webtv me apresenta falando de música sob uma perspectiva artística, crítica, marxista sem ser coisa de comunista. A constante busca pelo formato ideal em um processo de intensa experimentação audiovisual.

Nesta nova fase, o videocast está mais curto e fala sobre a revelação do samba Aline Calixto e analisa a maneira como determinados fãs se comportam diante da cena musical contemporânea. Encerrando o programete, uma surpresa que garanto que vai lhe agradar e lhe emocionar. Pra variar, a abertura é aquele show à parte. Confira mais este Sandália e Meia que como os outros foi feito como Deus quis e o Diabo deixou.

 

Videocast Sandália e Meia

 

“Bicicletas de Atalaia passeando pela terra da garoa!”

Setembro 14, 2009 por Marcos Oliveira

 

"Bicicletas de Atalaia - pop/acústico tupiniquim"

"Bicicletas de Atalaia - pop/acústico tupiniquim"

 

Uma grata descoberta que me foi apresentada no último sábado corresponde à banda paulistana – ou seja lá de onde realmente ela for – Bicicletas de Atalaia. A cada instante que eu vasculho o universo das bandas independentes do meu querido Brasil, eu percebo que a criatividade – capaz de fundir simplicidade e algo mais – se manifesta em sua magnitude pelos cantos, pelas vielas, nos detalhes, nas vírgulas, nos acentos e menos nas orações complexas e rebuscadas da gramática tradicional.

 Com o perdão da ousadia de tentar decifrar o som da banda, os/as Bicicletas de Atalaia se apóiam em traços clássicos da mpb brasileira mesclados a elementos da música pop. A pegada acústica do samba e da bossa nova, aliada a sutis e determinantes viagens experimentais estabelecem uma sonoridade que por ser difícil de classificar a torna tão promissora – mas todas essas minhas palavras no fundo no fundo não valem de nada.

 Os parágrafos anteriores serviram primordialmente para quem gosta de classificações e para alegrar aqueles que gostam das discriminações e nomenclaturas que cercam a nossa música. Também não vou compará-los a nenhuma outra banda, mas no myspace dos caras é possível sacar quais são as influências dos integrantes do grupo, além de – ao ouvir as músicas – estabelecer aquelas que estão mais embutidas na sonoridade “bibicletana”.

 Leo Mattos é o batera/voz e Bruno Mattos assume o violão/voz – “será que eles são irmãos?” Paulo Motta é o guitarrista, Júlio Nhanhá o baixista e Renan Cacossi toca sax e flauta transversal – “olho nesse cara!”. Bons músicos, é possível manjar que eles são, mas será que todos sabem andar de bicicleta? Sei lá viu, mas pouco importa!

 Os caras estão no site do selo Trama Virtual, onde é possível baixar gratuitamente as músicas de várias bandas independentes – inclusive dos/das Bicicletas de Atalaia. O melhor disso tudo é que os caras recebem por cada download feito. Para “tira gosto” e “aperitivo” eu deixo o belo clipe da canção “Alcoholic Dreams” – direção e edição de Rafael Marcelino. Agora tirem as suas conclusões e bons sonhos.  

 

Alcoholic Dreams – Bicicletas de Atalaia

 

 

Futebol, Música e Filosofia

Setembro 10, 2009 por Marcos Oliveira

 

"O sonho da família"

"O sonho da família"

 

“Era uma vez uma tribo brincando de paz e amor enquanto o homem mandava à lua o seu disco voador”. Em comemoração aos 40 anos da banda Novos Baianos, posto hoje o maravilhoso documentário da década de 70 ‘Novos Baianos Futebol Clube’. Dirigido por Solano Ribeiro e gravado em 1973, o filme mostra como este grupo de caras – pra lá de doidos – talentosos – e pra lá de doidos – viviam a perfeita harmonia entre futebol, música e filosofia; não necessariamente nesta ordem.

Vivendo todos juntos em um sítio em Jacarepaguá-RJ – o Cantinho do Vovô – os Novos Baianos apresentaram uma alternativa de vida completamente oposta ao individualismo egoísta e à intensa competitividade destrutiva que se expressam na sociedade atualmente. Na época, era uma subversão aos valores positivistas e progressistas predominantes e difundidos pelo governo militar.

Por outro lado, também, os Novos Baianos se destacaram por – em um período onde os compositores preferiam falar de censura, tristezas, problemas e crises – cantar as maravilhas do país. Belezas, qualidades, jeitos e hábitos que tornam o Brasil um país especial no mundo e não um poço de eternos problemas.

Este documentário é um excelente registro de como este talentoso grupo se comportava ao vivo. Já que são poucas as gravações da época, é bom aproveitar este documentário que demonstra que talento, inspiração e transpiração são e sempre serão fundamentais para a boa música.

 

Novos Baianos Futebol Clube

 

 

 

 

 

 

 

 

“E prá ter outro mundo
É preci-necessário
Viver!
Viver contanto
Em qualquer coisa
Olha só, olha o sol
O maraca domingo
O perigo na rua…

O brinquedo menino
A morena do Rio
Pela morena eu passo o ano
Olhando o Rio
Eu não posso
Com um simples requebro
Eu me passo, me quebro
Entrego o ouro…

Mas isso é só
Porque ela se derrete toda
Só porque eu sou baiano…”

Baiana do rock que também sabe ser pop!

Setembro 8, 2009 por Marcos Oliveira

 

"Resolvi dar uma moral pra marmanjada que a acompanha"

"Quem foi que disse que eu nunca escreveria sobre a Pitty?"

 

Dando prosseguimento ao post anterior - onde eu trato a questão do gosto e do que seria música boa e música ruim – hoje vou falar da música de uma cantora que eu não escuto, cuja sonoridade não faz o meu estilo e ainda assim eu sou obrigado a admitir que faz um trabalho musical bacana. Podem falar que o som da Pitty é comercial, que suas músicas são para adolescentes - e que por isso não são tão profundas quanto à temática e à abordagem - mas não é só o carisma junto aos fãs que mantém a carreira dela.

 A abordagem tradicional me levaria a dizer que o poprock é um estilo vazio e que a cantora baiana em questão colabora e muito para isso. Que suas músicas são uma afronta ao trabalho da rockeira Rita Lee e de outras cantoras como Baby Consuelo, Elis Regina e Gal Costa. Mas não dizer isto não seria justo e sim covarde da minha parte. Não é incapacidade, ou mesmo falta de talento, cantar aquilo que os adolescentes querem dizer – é uma questão de perspectiva, público alvo, opção e que deve ser respeitada.

 O que eu quero dizer com tudo isso? Também não é por isso que todas as bandas que tem uma forte aceitação junto aos jovens e que estão na mídia são boas. A Pitty consegue conciliar a simplicidade, o peso do rock com o apelo visual, estético e sonoro do pop. O fato dela se reinventar a cada momento em seu som faz com que ela, diferente de outros parceiros de gênero, se destaque musicalmente e não apenas como a última modinha entra a moçada teen.

 Se vocês estiverem atentos ao que eu estou escrevendo vocês poderão saber a quem estou me referindo quando estabeleço esta crítica. Estou cansado de fórmulas, de conceitos e de grupos pré-fabricados a partir de pesquisas de marketing e tendências mercadológicas da indústria fonográfica.

 Parabéns à Pitty. Provavelmente nunca comprarei um disco seu, nem farei downloads de suas músicas, mas, quem sabe, em um show eu poderei ir. Último destaque, prometo ser o fim, para o recém lançado clipe dela – ‘Me adora’. Vídeo muito legal, com takes bacanas, uma iluminação interessante e com uma proposta bem simples e eficaz. Além disso, senti que a música tem um ar de Jovem Guarda, estilo que adimiro e que também é vítima de muita, mas muita  discriminação – inclusive do público da Pitty.

 

Me adora – Pitty

 

 

 

 

 

“Tantas decepções eu já vivi

Aquela foi de longe a mais cruel

Um silêncio profundo e declarei:

“Só não desonre o meu nome”

 

Você que nem me ouve até o fim

Injustamente julga por prazer

Cuidado quando for falar de mim

E não desonre o meu nome

 

Será que eu já posso enlouquecer?

Ou devo apenas sorrir?

Não sei mais o que eu tenho que fazer

Pra você admitir

 

Que você me adora

Que me acha foda

Não espere eu ir embora pra perceber

Que você me adora Q

ue me acha foda

Não espere eu ir embora pra perceber

 

Perceba que não tem como saber

São só os seus palpites na sua mão

Sou mais do que o seu olho pode ver

Então não desonre o meu nome

 

Não importa se eu não sou o que você quer

Não é minha culpa a sua projeção

Aceito a apatia, se vier

Mas não desonre o meu nome

 

Será que eu já posso enlouquecer?

Ou devo apenas sorrir?

Não sei mais o que eu tenho que fazer

Pra você admitir

 

Que você me adora

Que me acha foda

Não espere eu ir embora pra perceber

Que você me adora

Que me acha foda

Não espere eu ir embora pra perceber”

Música boa é uma questão apenas de gosto?

Setembro 7, 2009 por Marcos Oliveira

 

Cult

"Um banquinho, um violão!"

 

Muitas vezes, fala-se que gosto é algo que não se discute – porém se lamenta. Esta frase, que com certeza você já deve ter escutado, levanta uma questão polêmica quando o assunto é música: é possível definir o que é música boa e o que é música ruim? É indicado classificar, discriminar as canções pelo critério da qualidade? Ou estaríamos todos mergulhados em um oceano de gostos e preferências particulares?

 Partindo do ponto de vista crítico e analítico, torna-se quase impossível não se estabelecer certos critérios que classificam e hierarquizam composições, discos e artistas como bons e ruins – na mais simples e básica das nomenclaturas. Porém, quem nos dá o direito de estabelecer tais comparações e definir o que é de bom ou mau gosto? E, a partir da nossa mente repleta de preconceitos e intolerâncias, institucionalizar grupos e padrões de qualidade musical.

 Por outro lado, ao se relativizar demais esta questão caímos – também – na perigosa armadilha da superficialidade, da mediocridade, da banalização e do estabelecimento de uma cultura que não se sustenta e que a cada momento é superada por um circuito de modas efêmeras e itinerantes. É claro que a dinâmica transformadora é fundamental para o crescimento de qualquer cultura, desde que o preço não seja a eterna transição e busca de valores importados por sabe-se lá quem.

 Este assunto é polêmico e por vezes – este que vos escreve – se sente contra a parede, em uma “sinuca de bico”, em um constante paradoxo e recorrentes dúvidas. Em determinados momentos me sinto no direito e no dever de opinar sobre aquilo que é bom e o que é ruim, mas em seguida penso que tal comportamento serve apenas para um stress desnecessário e que valorizar as peculiaridades daquilo que não se gosta também faz parte da crítica – da análise. 

 Quando eu era adolescente – fã de Engenheiros do Hawaii – era massacrado pelos colegas da escola. Diziam que por este meu gosto musical eu curtia “drogas pesadas”. Várias vezes escutamos a classe erudita recriminar o funk, o pagode, o sertanejo, a música eletrônica, ao considerar que tais gêneros são um retrocesso à genuína cultura tupiniquim – um pensamento um tanto quando nazista não?

 

"Eu sou o amor da cabeça aos pés  Vs  Aqui na face da terra só bichos escrotos é o que vai ter"

"Eu sou o amor da cabeça aos pés Vs Aqui na face da terra só bichos escrotos é o que vai ter"

 

 Eleva-se o samba, mas assegura-se a discriminação com relação ao pagode – definido como a “apropriação vazia e mercadológica do ritmo dos geniais Cartola, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola… Blá, blá, blá”. Persegue-se o que se toca nas rádios e o que se passa nas telas da tv através de discursos conservadores, retrógrados e cansativos – “por isso que o Brasil não vai pra frente; em vez de bossa nova as pessoas cantam o créu e o bunda lele da festa no apê”.   

 Este cenário é campo fértil para o desabrochar de fãs ortodoxos Brasil afora. Ícones são estabelecidos e colocados em um pedestal contemplativo acima do bem e do mal, acima de qualquer crítica e de qualquer suspeita. Chico Buarque e Caetano Veloso estão no topo deste ranking, deste altar sacrosanto onde são estabelecidos como semideuses, ou mesmo, guardiões da cultura tipicamente brasileira – mas a lista é enorme.

 No outro lado da moeda, assistimos a uma série de imposições de gostos, de gêneros e de artistas por puro interesse mercadológico a fim de se ganhar alguns trocados a mais – trocado é força de expressão. Neste momento, a crítica deve despir-se de todo o pudor e assumir a face ácida do comentário que vai de encontro às fórmulas de sucesso e aos padrões engessados de produção cultural que insistem em promover a repetição vazia de sentidos e em frear o dinamismo inovador e transformador da nossa música.   

 Penso ser possível classificar o que é boa música e, ao mesmo tempo, levar em conta questões como o gosto. Penso ser possível ter a plena consciência de que algum artista, musicalmente, não é bom e ainda assim gostar do trabalho dele. Afinal, a música nem sempre estará ligada a questões técnicas e vejo isso com bons olhos, pois a sensibilidade sensorial é o 1º motor para se fazer e se ouvir alguma canção.

 Modas vem e vão e o tempo se encarrega de definir quem tem condições de, com mais ou menos talento, se impor no gosto das pessoas e nos almanaques acadêmicos. Boa música é aquela que atenda a seus propósitos iniciais e que transmita uma mensagem de modo sincero e honesto sendo capaz de se infiltrar na rotina das pessoas de maneira natural, atemporal e universal – subjetividade pouca é bobagem.

 

"Quando Deus te desenhou Vs Só os fortes sobrevivem"

"Quando Deus te desenhou Vs Só os fortes sobrevivem"

 

 

 

A melhor banda de todos os tempos da última semana – Titãs

 

 

“Quinze minutos de fama
Mais um pros comerciais,
Quinze minutos de fama
Depois descanse em paz.

O gênio da última hora,
É o idiota do ano seguinte
O último novo-rico,
É o mais novo pedinte

A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores
fracassos”