Resgatando temas antigos e recorrentes da minha pauta e tentando ir direto ao ponto, hoje escreverei sobre a intrigante relação fã e ídolo, não necessariamente nessa ordem. Quais os limites entre a admiração/contemplação por um trabalho e por profissionais e a exagerada exigência/controle sobre o mesmo trabalho e esses mesmos profissionais?
Algumas situações particulares me chamaram a atenção, pois pude presenciar e por isso relatarei aqui. Quando os Los Hermanos resolveram entrar em recesso escutei frases como “eles não podem fazer isso”, “isso é uma falta de consideração”, só faltou mesmo “eu acho isso uma puta falta de sacanagem” , mas vamos lá!
Puxa vida, quando você, fã, quer mudar de trabalho ou fazer outra coisa, o seu ídolo não fica por aí dizendo que você não tem esse direito. Aliás, caso você seja um bom profissional, haverá lamentos, mas o sentimento que irá imperar é de que alguém está correndo atrás da satisfação pessoal e ou profissional – simples assim também é com o ídolo!
Fã declarado que sou do trabalho da Baby do Brasil, escuto muita gente dizer que o problema dela foi ter se tornado evangélica, que a relação dela com a religião não é legal, não é bacana, que o massa era quando ela era dos Novos Baianos e se chamava Baby Consuelo. Por mais que eu concorde com algumas coisas, isso também me soa como uma grande blá, blá blá!
Eu também penso que a melhor fase dela foi junto aos Novos Baianos, mas isso tem muito a ver com as circunstâncias, com a época. Tratava-se de um grupo de artistas maravilhosos e é claro que juntos fariam e fizeram coisas incríveis, mas já era, já foi e talvez isso tenha sido até melhor para a história da banda.
Mas o que eu quero dizer é que o ídolo não se interfere em assuntos pessoais dos fãs, como religião, crença ou a forma como ele quer ser chamado – aliás, o nome dela nem é Baby, é Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Sem contar que a crença da Baby não a impede de cantar bem e muito até hoje – vamos levar em consideração a idade, né?
Quando o rapaz Rodolfo Abrantes anunciou a sua saída dos Raimundos muitos fãs ficaram inconformados, outros se disseram traídos, vários zombaram e fizeram chacota, mas o que rolou é que o até então vocalista do grupo não mais se sentia confortável com aquilo que cantava e resolveu que o melhor era sair – sensato, não?
O que vale dizer aqui é que o cara tem o direito de fazer o que ele está afim, pois ele é quem sabe da própria vida. O fã pode até lamentar, isso é natural, mas é necessário compreender que quem sabe de uma carreira é o próprio profissional.
Estou louco pra ver a repercussão do dia em que durante um show o artista começar a escolher quem pode ou não assití-lo seguindo critérios os mais abstratos, subjetivos, indivíduais e seguindo apenas o próprio gosto e expectativas.
No mais, não escrevi este texto para falar mal dos fãs, pois os artistas devem muito a eles, como Jorge Benjor canta em Canção de uma fã. Porém, é preciso cuidado para que eles não hajam como urubus na carniça e nem como se o ídolo fosse um novo messias, alguém indispensável ou pior, alguém inquestionável – Roger Waters que o diga ao idealizar o The Wall.
Como o texto ficou bem extenso, já que este é um assunto tão polêmico quanto o meu terceiro mamilo, finalizo aqui com a música Freud Flinstone (do disco Gessinger Trio, 1996), que a meu ver sintetiza bem aquilo que quero dizer sobre isso. “Querem a lágrima doída do ídolo caindo em câmera lenta”.
Freud Flinstone – Gessinger Trio
Tags: análise, ídolos, Baby do Brasil, Comentário, controle, Crítica, distinção, engenehiros do hawaii, escravidão, fanatismo, fãs, freud flinstone, gessinger trio, idolatria, jorge ben, los hermanos, Novos Baianos, opção, raimundos, rodox, roger watter, the wall
